O homem unidimensional

Notas sobre "A ideologia da sociedade industrial" (1973), de Hebert Marcuse

Em uma tradução menos comercial, “O homem unidimensional: estudos sobre a ideologia da sociedade industrial desenvolvida”, publicado em 1964. Um livro com muitos pontos fortes. Marcuse é um pensador dialético por excelência. Por um lado, ele demonstra como a tecnologia modifica os instrumentos de produção e promove avanços para a emancipação humana. Por outro, ele avalia como a tecnologia é parte de uma nova forma de controle, impactando: (i) o trabalho; (ii) o universo político; (iii) a consciência; (iv) o universo de locução; (v) a cultura; e (vi) o pensamento.

Em síntese, essa nova forma de controle é a sociedade unidimensional e o pensamento unidimensional. É a ideologia das sociedades industriais desenvolvidas, que é, em uma de suas formas, o “Estado de Bem-Estar Social”. Em outras palavras, uma sociedade e um pensamento que se reafirmam em diversas esferas de maneira positiva, racionalizando o irracional e harmonizando ou suprimindo o pensamento negativo/subversivo. Como resultado, repele a potencialidade concreta de formas alternativas de sociedade que poderiam transformar a realidade existente.

No geral, achei dois aspectos particularmente interessantes. O primeiro é que Marcuse enfatiza que o modo social de produção, e não a técnica, é o fator histórico básico. O segundo é que o dilema tecnológico não se trata de uma simples afirmação ou negação em abstrato. Uma tecnologia pode servir tanto a uma sociedade capitalista quanto a uma sociedade socialista; contudo, isso não implica que as transformações tecnológicas e científicas não sejam materializações dos valores de uma determinada sociedade. Ou seja, os valores de uma tecnologia não são meros complementos ou externos a ela, mas a própria tecnologia é uma materialização desses valores. O mesmo se aplica ao conhecimento científico.

Por fim, um relato pessoal da importância do pensamento dialético que permeia o livro. Outro dia, eu estava acompanhando uma discussão na internet em que os dois lados estavam certos e errados ao mesmo tempo. Eles estavam certos porque apontavam especificidades reais sobre o que estavam discutindo. Eles estavam errados porque negavam as especificidades apontadas entre si, pois eram, aparentemente, excludentes. Ao negarem o contraditório do que o outro dizia, perdiam de vista a totalidade mais complexa. Assim, deixavam para trás uma parte da realidade, incompreendida, o que os levava a uma batalha discursiva sem fim.

Enfim, apesar de ser contra-intuitivo — afinal a sociedade capitalista nos condiciona estruturalmente a ter um pensamento unidimensional —, é perfeitamente possível pensarmos a realidade através do contraditório. Embora existam vários, talvez este seja a maior ensinamento que se pode tirar da obra: a recusa do pensamento unidimensional e a prática de um pensamento dialético. Feito que Marcuse realiza com método e maestria ao longo do livro.

Aliás, a última página é sinteticamente excepcional:

Contudo, por baixo da base conservadora popular está o substrato dos párias e estranhos, dos explorados e perseguidos de outras raças e de outras cores, os desempregados e os não-empregáveis. Eles existem fora do processo democrático; sua existência é a mais imediata e a mais real necessidade de por fim às condições e instituições intoleráveis. Assim, sua oposição é revolucionária ainda que sua consciência não o seja. Sua oposição atinge o sistema de fora para dentro, não sendo, portanto, desviada pelo sistema, é uma força elementar que viola as regras do jogo e, ao fazê-lo, revela-o como um jogo trapaceado. Quando eles se reúnem e saem às ruas, sem armas, sem proteção, para reivindicar os mais primitivos direitos civis, sabem que enfrentam cães, pedras e bombas, cadeia, campos de concentração e até a morte. Sua força está por trás de toda manifestação política para as vítimas da lei e da ordem. O fato de eles começarem a recusar a jogar o jogo pode ser o fato que marca o começo do fim de um período.

Nada indica que será um bom fim. As aptidões econômicas e técnicas das sociedades estabelecidas são suficientemente vastas para permitir ajustamentos e concessões aos subcães, e suas forças armadas suficientemente adestradas e equipadas para cuidar de situações de emergência. Contudo, lá está novamente o espectro, dentro e fora das fronteiras das sociedades avançadas. O fácil paralelo histórico com os bárbaros ameaçando o império da civilização prejulga a causa; o segundo período de barbarismo bem pode ser o império continuado da própria civilização. Mas a probabilidade é que, nesse período, os extremos históricos possam novamente se encontrar: a mais avançada consciência da humanidade e sua força mais explorada. Nada mais é do que uma probabilidade. A teoria crítica da sociedade não possui conceito algum que possa cobrir a lacuna entre o presente o seu futuro; não oferecendo promessa alguma e não ostentando êxito algum, permanece negativa. Assim, ela deseja permanecer leal àqueles que, sem esperança, deram e dão sua vida à Grande Recusa.

No início da era fascista, Walter Benjamin escreveu:

Nur um der Hoffnungslosen willen ist uns die Hoffnung gegeben.

Somente em nome dos desesperançados nos é dada esperança.

∗ ∗ ∗

marginália   filosofia  

Comentar por e-mail ↪

Voltar ao blog ↩