Até o glorioso fim

A sabedoria conciso-ideogramática de uma vida, das palavras partida/s de quem nunca deixou de manuseá-las com a ternura do fio da lâmina samurai

Caixa Cultural

Caixa Cultural, São Paulo, 2015

Ensaio de Paulo Leminski, publicado em 1989 na Folha de Londrina, meses antes de sua morte.

Corpo não mente

Quando Francisco Xavier, o missionário jesuíta, aportou no Japão, na crista das navegações, sua catequese produziu milhares de conversões e o catolicismo começou a se espalhar pelo país.

Nas cartas que escreveu para seus superiores em Roma, Xavier descreve com júbilo os progressos do apostolado na Terra do Sol Nascente. Nas mesmas cartas, porém, queixa-se contra os adeptos de uma seita chamada zen (deve ser a primeira menção ao zen na Europa). Não consigo converter nenhum dos adeptos dessa seita, Xavier confessa. Não mostram nenhum respeito pelas coisas sagradas, riem de tudo e debocham dos símbolos de nossa religião, prossegue ele.

A razão secreta do insucesso de Xavier com os praticantes do zen reside na radical diferença entre as relações corpo/mente (ou corpo/alma) no catolicismo e no zen. Todas as práticas zen (o zen é – sobretudo – uma prática) visam atingir o ponto de fusão corpo/mente, aquele lugar alfa onde essa distinção (vista como erro e ilusão) não seja mais possível. Visariam, de certa maneira, uma espiritualização do corpo e uma corporificação da mente e do espírito.

Isso é muito visível nas artes marciais, judô, kendô, caratê, aikidô, todas empapadas de zen. Quem pratica artes marciais, aprende logo que o corpo não é uma máquina governada por um comandante genial chamado mente. Na hora de aplicar um golpe, sente-se claramente que o corpo pensa. Impossível não ver os paralelos entre essa experiência e a vivência do sexo que, para ser realizado plenamente, exige um momento de fusão total entre um corpo que sente e uma mente que dirige. Não se pode obter uma ereção ou um orgasmo pensando em reforma tributária…

Ao tentar converter superiores da seita zen, com a frase básica “salve tua alma”, Xavier esbarrou num obstáculo intransponível: os monges zen não podiam conceber que a alma fosse uma coisa que a gente possuísse e pudesse ter um destino distinto do corpo, suas peripécias, misérias e esplendores. A arte de um judoca ou de um carateca não é “una cosa mentale”, como disse Leonardo da pintura. É essencialmente unitária, anterior ou posterior à dicotomia corpo/mente que impregna, sub-repticiamente, todo o pensamento ocidental de Descartes para cá.

As origens desse divórcio no indissociável são, claro, de natureza religiosa: a mente do racionalismo ocidental é a filha leiga da alma salvável no cristianismo. Sem direito a além-túmulo, porém. Mas não pense que coisa tão grave teve raízes apenas filosóficas na mente de algum pensador isolado. A sociedade urbano-industrial, através dos métodos de trabalho que impôs, promove a dissociação corpo/mente mais do que qualquer tratado de metafísica.

É uma força desagregadora, destribalizante, atomizante. Não há lugar para o corpo na grande fábrica, a não ser como a unidade de trabalho, nunca como lugar de prazer e satisfação sensorial. E a alma toma os novos nomes de “habilitação profissional”, “treinamento especializado”, abstrações no seio dessa imensa abstração que é a anônima sociedade industrial-urbana.

Eu mando, você obedece

Escravos e senhores. Nobres e servos. Patrões e empregados. Técnicos e operários. Nada distingue mais o homem dos animais do que a divisão de trabalho, nossa grande força e também a fonte de nossas fraquezas.

Foi através da divisão do trabalho que o homem multiplicou seus poderes sobre a natureza numa velocidade fantástica: há apenas 30 mil anos tudo o que tínhamos para enfrentar a hostilidade do meio ambiente eram armas de pau, pedra e osso e vestimentas de peles de animais. Neste prazo biologicamente curtíssimo, saltamos da lança de madeira para o computador, a eletricidade, a engenharia genética e a energia nuclear. Isso só foi possível porque o homem, em todas as latitudes, especializou determinados grupos da sociedade em tarefas específicas. Qualquer tigre sabe fazer tudo o que qualquer tigre faz, e nada além disso. Todo tigre é um inteiro. Nós somos fragmentados. Uns plantam, outros vendem. Uns mandam, outros obedecem. Uns celebram cerimônias aos deuses, outros carregam pedras para erguer pirâmides, templos e catedrais.

Quem não vê que a dicotomia mente/corpo é uma projeção e uma decorrência da divisão do trabalho, a divisão interiorizada em nós? A mente é uma metáfora da classe dirigente servida pelo corpo.

A divisão do trabalho é o verdadeiro Pecado Original, aquele que nos expulsa do paraíso e nos lança na grande aventura da vida e do mundo. A serpente sugere, Eva colhe o fruto proibido, Adão o come… Integrar mente e corpo é voltar ao paraíso que só conseguimos experimentar em momentos privilegiados: a pessoas desintegradas, o paraíso também é vivido sob a forma de fragmento.

Um dos momentos mais radicais da divisão do trabalho está na separação entre trabalho braçal e intelectual. Essa divisão começa no mundo religioso. Sacerdotes e agricultores, monges e guerreiros, padres e fiéis, são o modelo remoto da atual divisão entre técnicos e teóricos diante da mão-de-obra.

E certas práticas religiosas como o jejum, a castidade, o silêncio e a busca do desconforto físico concorreram poderosamente para acelerar a cisão entre corpo e mente. Não seria exagero imaginar que a noção da “alma” tenha nascido dessas práticas onde o corpo é tratado como um inimigo, fera que deve ser domada, humilhada e reduzida a ser uma montaria dócil sob as rédeas do “Espírito”.

No século passado, quando começa o mando industrial de hoje, aparece a figura do “intelectual”, o homem/mente por excelência, vivendo apenas na atmosfera rarefeita do “mundo das idéias”. Com o intelectual, seus afins, o técnico, o especialista, o pensador…

Entre um corpo e uma mente, mil anos-luz de vazio onde se criam monstros e demônios, duendes e neuroses. Os demônios se chamavam Lúcifer, Belzebu, Asmodeu, Belial. Hoje chamam-se neurose, paranoia, esquizofrenia, mania, ansiedade. É perigoso separar aquilo que, por natureza, é uno e inteiro.

De volta à unidade

Retorno ao paraíso perdido, a re-união mente e corpo não pode sequer ser sonhada, em termos integrais. Essa estranha entidade que é o ser humano, que somos nós, resulta irremediavelmente cindida.

O próprio exercício disso que se chama “razão” parece estar ligado, carne e unha, com a dissociação entre uma metade que “pensa” e um corpo que obedece. Estamos condenados à razão. Mas é essa mesma razão dissociativa que pode nos aproximar, por momentos iluminados, da unidade perdida, em algum ponto-anos-luz no espaço/tempo.

Nós buscamos essa unidade na prática do lúdico e do erótico, na arte, no esporte, no amor e no sexo. Nessas áreas do in-utensílio, a vida além da tirania do lucro e da utilidade. Ao brincar e jogar, estamos salvos, livres. E de volta.

Para o zen, é na própria vida cotidiana que está o segredo. É preciso resgatar a grandeza infinita dos gestos simples e “elementares”. Cuidar da vida. Curtir a minúcia. Lavar a própria roupa. A louça. Arrumar a casa. Fazer sua comida. Tomar banho como quem realiza um ato sacro. Recuperar o prazer da prática dos atos primários. Saber que ser matéria, caralho e buceta, boca e estômago, é uma dignidade e um esplendor.

Dá trabalho.

Mas, para brilhar, as estrelas têm que arder, até o glorioso fim.

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